terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Crise na polícia do Rio: tentando entender.

Com autorização de Jorge Antonio Barros, autor do blog 'Repórter de Crime', reproduz-se agora, na íntegra, a matéria postada hoje no Rio de Janeiro.
Como carioca nascido na Tijuca e criado em Ramos, o ultramaratonista Fernando Pangaré tem acompanhado atentamente o desenrolar dos fatos hoje vividos pela segurança pública carioca.
A coluna cervical do fernandopangare.com é e sempre será a ultramaratona, entretanto, situações atípicas que trazem em seu bojo a comoção popular poderão - e, com certeza, merecerão - receber audiência.
O texto:
Jorge Antonio Barros transparentemente apresenta o seio da segurança carioca.






Infelizmente não há mais lugar na mesma polícia para Allan Turnowski e José Mariano Beltrame. Um dos dois terá que pedir pra sair. Na verdade esses dois agentes da lei nunca pertenceram a mesma corporação. Como se sabe, Allan é delegado da Polícia Civil e Beltrame, delegado federal. Eles foram se encontrar na Secretaria de Segurança Pública por obra de uma indicação de pessoas muito próximas do governador Sérgio Cabral. Turnowski não foi escolhido por Beltrame. Desde que teve início a fritura por Beltrame, em setembro do ano passado, Turnowski se ocupou de fortalecer os vínculos com o governador.
Os problemas entre Beltrame e Turnowski começaram em meados do ano passado, quando o secretário descobriu que levava bola nas costas por parte de policiais ligados ao chefe da Polícia Civil.  Sem titubear, Turnowski exonerou seu então braço direito, delegado Carlos Oliveira, que retornou à Secretaria municipal da Ordem Pública. A justificativa para a exoneração foi que Oliveira não havia atingido as metas exigidas pela Secretaria de Segurança. Turnowski tentou mostrar alguma lealdade a Beltrame.
Como a Operação Guilhotina, da Polícia Federal, não obteve provas contundentes contra Turnowski ele foi mantido no cargo, a despeito do constrangimento de ter sido chamado para prestar esclarecimentos sobre o que faziam de errado os policiais que eram administrativamente ligados a ele. Em qualquer país sério Turnowski cairia porque não se pode admitir que uma autoridade na polícia desconheça ilegalidades praticadas por seus subordinados.  Por um dois até se entende. Mas por quatro quadrilhas que vendiam proteção para traficantes, milicianos e contraventores, é muita gente pra guardar segredo de alguma coisa. Qualquer pessoa com QI médio é capaz de perceber ou ao menos suspeitar de algo de errado que acontece ao seu redor.
A inteligência de Turnowski é com certeza acima da média. Ao notar que aumentava o calor da fritura (Beltrame disse no sábado que ninguém, nem o chefe da Polícia, tem carta branca  para agir), Turnowski partiu para o ataque. Seu alvo foi justamente o delegado Claudio Ferraz, que colaborou com a Operação Guilhotina, e contava com total apoio de Beltrame. Tanto assim que o secretário tratou de convidá-lo para o novo cargo de subsecretário da Contra Inteligência - ligado à Subsecretaria de Inteligência - e levar a Draco (Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas Organizadas) para o guarda-chuva da Secretaria de Segurança. Com a medida, Beltrame pretendia dar carta branca a Ferraz para combater a banda podre na Polícia Civil. Coragem não falta a Ferraz, que foi o principal responsável por mais de 500 prisões de milicianos, policiais e ex-policiais civis e militares, que não eram incomodados desde o governo que antecedeu o de Cabral.
Convicto de que estava prestes a cair, Turnowski atacou com uma denúncia anônima para manchar seus oponentes, que alega ter recebido em casa na noite de domingo. A verdade é que essas supostas denúncias de extorsão já estavam rolando nos bastidores, mas havia fortes suspeitas de que os documentos seriam apócrifos. Não existe santo na polícia, mas o delegado Claudio Ferraz não daria tanto mole depois de botar em cana mais de cinco centenas de milicianos sedentos de vingança. Com a habilidade de um enxadrista, Turnowski deu um xeque ao usar inclusive o mesmo discurso de Beltrame: o combate à corrupção na polícia. Com certeza um golpe de mestre. Se deixasse o cargo, Turnowski cairia arrastando a imagem de outros com ele, especialmente de um que conta com o apoio de Beltrame.
O único lance mal dado por Turnowski foi quando afirmou, numa entrevista na TV, que se Ferraz fosse seu subordinado não pensaria duas vezes antes de exonerá-lo, apesar de o inquérito na Corregedoria ter sido aberto ontem e com base numa denúncia anônima - algo que os policiais detestam admitir usar, para investigar seus pares. A afirmação de Turnowski, de que exoneraria o colega, a meu ver insinua que o secretário de Segurança estaria prevaricando se não o fizesse. Com a firmeza com que apresentou as supostas denúncias envolvendo Ferraz, Turnowski tentou dar um golpe na opinião pública. Com tanto escândalo vindo à tona, muita gente não consegue mais distinguir mocinhos de bandidos. Com tanto criminoso para ser preso, é triste ver os policiais não se entenderem na cúpula. Depois da vitória celebrada na conquista do Alemão, é lamentável o nível de disputa pelo poder dentro da própria polícia.
O que Turnowski pode ter esquecido é que Beltrame, com a credibilidade conquistada pela redução dos índices de criminalidade e o relativo sucesso do projeto de pacificação de favelas, se tornou o grande avalista da política de segurança do governo Cabral, uma das pontes que o levou à reeleição. Beltrame goza de grande prestígio nas mais diversas camadas sociais do Rio e do país e essa popularidade lhe daria vantagem até mesmo numa eventual corrida política. Entre Turnowski e Beltrame, o governador Sérgio Cabral não tem dúvida de quem pode abrir espaço para suas ambições políticas. A dificuldade de Cabral será obter uma saída honrosa para Turnowski, sem deixar insatisfeitos os grupos que apoiam o chefe da Polícia e órfãos os policiais civis que têm nele um dos maiores líderes que já passaram pelo cargo.
 Post Scriptum: Após reunião com Beltrame na Secretaria de Segurança, Allan Turnowski acabou de pedir demissão há pouco. Apesar da briga que comprou, ele saiu sendo elogiado por Beltrame pelos serviços prestados à polícia. Turnowski pode ter conseguido queimar Claudio Ferraz, que não vai assumir o cargo para o qual estava cotado há três meses. O que foi negociado a portas fechadas ainda é difícil saber, mas que houve algum tipo de acordo político, não tenho dúvida de que houve. 

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banda podre

Uma janela da corrupção na polícia

O governador Sérgio Cabral e o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, se orgulham de ter conseguido acabar com a influência de parlamentares na nomeação de delegados e comandantes de batalhão no Estado do Rio de Janeiro. De fato, a influência política na polícia é uma das principais raízes da corrupção e do favorecimento no sistema policial. Um determinado político colocava seu protegido no comando de um quartel da PM ou de uma delegacia e esse policial passava a prestar contas ao padrinho. Muitos policiais em postos de chefia acabavam sendo obrigados a bancar até a caixinha de campanha dos políticos. E de onde vinha esse dinheiro? Obviamente das propinas das máfias e quadrilhas que atuam nos mais diversos setores - da contravenção ao tráfico de drogas, passando por outras atividades ilegais como pirataria, exploração da prostituição, de clínicas de aborto etc etc.
Com o secretário Beltrame, o governo conseguiu aos poucos reduzir bastante essa influência política na polícia, diminuindo a corrupção no andar de cima, da segurança pública. Só que, apesar de todo o esforço do governo, foi deixada uma janela, por onde agora vemos a polícia novamente mergulhada em escândalos de corrupção: o uso de PMs em delegacias especializadas, os chamados adidos da Polícia Civil. Esses policiais conseguem escapar do regime militar dos quartéis e aderem à rotina das delegacias especializadas, sem horário fixo, uso de uniforme e respondendo diretamente aos delegados ou inspetores designados pelos seus superiores. Como são arrojados e destemidos, esses PMs adidos conseguem recrutar informantes e X-9 dentro das quadrilhas. Esses contatos são fundamentais para o trabalho de polícia só que é praticamente impossível sair limpo de uma relação dessas. Esses PMs circulam com facilidade entre os criminosos que acabam se tornando seus clientes na compra de armas e drogas desviadas da própria polícia.
Certamente por conhecerem mal os meandros das organizações policiais no Rio, os integrantes da cúpula da Secretaria de Segurança não se deram conta de que os adidos eram uma bomba relógio controlada por policiais em posições de comando da Polícia Civil.  Só depois que a Polícia Federal informou ao secretário de Segurança o que estava acontecendo dentro da Polícia Civil é que Beltrame determinou há cerca de 3 meses que todos os 50 PMs adidos fossem devolvidos à sua corporação. Desses, 15 ainda foram preservados por influência da cúpula da Polícia Civil pelos "relevantes serviços prestados" desde meados da década de 90. Esses policiais eram fiéis escudeiros, prontos para matar e morrer, mas que mantinham seus negócios excusos sem qualquer interferência dos delegados.
Quando esses fatos vieram à tona azedou a relação entre o secretário Beltrame e o chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski, que construiu sua excelente carreira com o trabalho de muitos desses PMs adidos que foram presos na Operação Guilhotina, da Polícia Federal. Quando Allan assumiu o comando da Polícia Civil, esses policiais passaram a ficar sob controle do subchefe operacional de Allan, Carlos Oliveira, que também foi preso, acusado de corrupção. Allan é um policial talentoso e bem remunerado por seus trabalhos de consultoria de segurança privada. Não me parece que precise receber propinas para manter seu padrão de vida. Acredito no seu empenho para combater o crime, no Rio. Mas o sistema de PMs adidos está falido. Esse modelo é uma herança do regime militar com seus DOI-CODI, os Destacamentos de Operações de Informação, que recrutavam militares, policiais civis e PMs, além de bombeiros e outros  integrantes de órgãos de segurança. Como lembram, os DOI eram os porões do regime militar, nos quais se cometeu todo tipo de barbárie.
O que a sociedade precisa entender é que o mesmo bravo policial que é condecorado por ter assassinado impiedosamente bandidos pode resvalar para uma prática violenta que, em pouco, tempo estará envolvida com a corrupção. Assim como o clientelismo na política, a violência é prima-irmã da corrupção na polícia. Os mais antigos lembram da saga dos homens de ouro, o grupo de elite criado no fim da década de 60, no Rio. O policial que se acha investido do direito de matar - sobretudo em autos de resistência forjados - acaba acreditando que não nada há demais em se apossar dos despojos de guerra - como ocorreu no Complexo do Alemão. Dali para a extorsão de criminosos e cidadãos é um pulo. Talvez por não exigir dos governantes uma reforma profunda na polícia - que inclui melhor qualificação e melhores salários - a sociedade acha sempre que pode fechar os olhos para tudo de errado que os policiais fazem. Só que uma hora é ela mesma quem vai pagar a conta.

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