quarta-feira, 2 de março de 2011

Corpo e cabeça de ultramaratonista.

O que acontece no corpo e na cabeça de um ultramaratonista?

Acompanhamos a Ultramaratona BR135 atrás das respostas de quem correu 217 quilômetros

Yara Achôa, de São João da Boa Vista (SP), especial para o iG | 31/01/2011 10:58
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Foto: Guilherme Lara Campos / Fotoarena
Dor, sacrifício, superação física e mental: rotina de um corredor de longas distâncias

A corrida muda a vida de muita gente. Alguns começam no esporte como uma evolução da caminhada ou para melhorar a qualidade de vida. Há ainda quem seja atraído pela superação de limites, pelos desafios. Geralmente iniciam com alguns metros, passam para um quilômetro, depois dois, cinco, dez... O progresso na distância e a mistura desses objetivos são naturais e logo fazem de você um corredor.
Foi assim com o empresário Mário Lacerda, 53 anos. Caminhante de longa data – já havia feito trilhas de peregrinação como o Caminho de Santiago de Compostela (na Espanha) e outros do gênero, como o Caminho da Fé (no Brasil) –, Lacerda se viu fascinado por uma corrida a partir de uma reportagem na televisão e resolveu dar alguns passos além. Só não imaginava que iria tão longe.
Na época Lacerda morava nos Estados Unidos e a corrida em questão era a ultramaratona Badwater: competição com 217 quilômetros disputados no deserto do Vale da Morte (EUA), considerada uma das mais duras do mundo, já que os atletas enfrentam temperaturas que chegam a 55º C e altitudes de até 3900m. Colocou na cabeça que iria participar da prova. “Até então eu não corria, só era bom em caminhada. Mas comecei a treinar. Corria meia milha, voltava meia milha. Passei a correr uma milha, depois voltar mais uma. Aos poucos fui avançando”, conta.


Foto: Guilherme Lara Campos / Fotoarena Ampliar
Ultramaratona BR 135: 217 quilômetros de superação pela Serra da Mantiqueira
Resultado: Mário Lacerda virou ultramaratonista. Participou da Badwater em 2005 (quando, por inexperiência, não conseguiu concluir a prova, pois a sola de seu tênis derreteu no deserto) e 2006. E inspirado pelo desafio vencido, tatuou a altimetria da prova na panturrilha esquerda e decidiu criar uma versão verde e amarela da corrida.
Assim nascia a Brazil 135 (ou BR135): a maior e mais difícil prova do Brasil, também com distância de 217 quilômetros, realizada na Serra da Mantiqueira, entre as cidades de São João da Boa Vista (SP) e Paraisópolis (MG), trecho mais difícil do Caminho da Fé.
De 21 a 23 de janeiro, a reportagem do iG Saúde acompanhou as 60 horas (tempo limite para a conclusão da prova) da sexta edição da BR. A ideia foi tentar entender o que se passa na cabeça, no corpo – e literalmente no coração – desses atletas que embora tenham fisionomias de homens e mulheres comuns, são ultraresistentes como os heróis.
Gente como a gente
A BR é uma prova única: difícil, sem dúvida, mas transformadora também. E reúne pessoas como o técnico de segurança José Servello, 62 anos, de Santo André (SP), recordista em participações na competição. “Quando eu era garoto, meu pai dizia: ‘corre, se não a fome te pega’. Comecei e não parei mais”, conta.
Mas Servello corre também dos médicos, com receio de que eles possam desestimulá-lo a continuar no esporte – dado o grande esforço que uma ultramaratona exige. ”Só vou ao ortopedista quando tenho de tratar alguma lesão”, diz. Mas e o coração? “Coração? Eu tenho isso?”, devolve, divertindo-se.
Em contrapartida, a reportagem encontrou o médico e ultramaratonista João Gabbardo, 55 anos, superintendente do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal. Além de ter o check-up em dia, ele faz parte do grupo de pesquisa da médica Núbia Vieira, que avalia o coração de atletas de endurance. E resolveu acompanhar a jornada do corredor, registrando suas dores e emoções ao longo do caminho.

A seta amarela indica o caminho a seguir pelas trilhas da Serra da Mantiqueira na Ultra BR135
Foto: Guilherme Lara Campos / Fotoarena
A seta amarela indica o caminho a seguir pelas trilhas da Serra da Mantiqueira na Ultra BR135

Preparo psicológico e apoio
Ainda na véspera da largada, durante o Congresso Técnico da BR135, entre informações para os atletas e explicações de logísticas para equipes de apoio, nossa equipe conversou com outros corredores que começaram a dar pistas de como enfrentar aquela “loucura”.

“Em uma prova como essa, o preparo psicológico é tão importante quanto o físico. Eu chego a fazer treinos de oito horas sozinha para me acostumar”, disse Débora Simas, 39 anos, gerente de uma lanchonete em Florianópolis. Ela, que é um dos grandes nomes da ultramaratona no Brasil, era a favorita entre as mulheres (e confirmou seu favoritismo, concluindo a BR135 em 33h49m).
Em meio aos brasileiros, também havia estrangeiros de países como Argentina, Austrália, Canadá, Costa Rica, Espanha, Estados Unidos e Reino Unido.
Os americanos Anthony Portera, 39 anos, advogado; Chris Roman, 41 anos, médico; e Jarom Thurstom, 36, analista de sistemas, vieram dos Estados Unidos para fazer o Caminho da Fé e encaixaram a BR135 na programação para tornar a jornada mais emocionante.
Para Chris, experiente corredor, o maior desafio em provas de endurance é mental. “Bolhas, dores musculares, câimbra, cansaço, calor... Tudo faz você querer desistir. A cabeça é que faz continuar”. Como profissional da área médica, assim como nosso personagem João Gabbardo, ele diz que conhece bem os danos que uma prova como essa provoca ao corpo. E brinca: “Isso não parece ser muito esperto”.
Palavras de incentivo e apoio de amigos e familiares costumam agir como o maior dos repositores energéticos. A mulher de Chris, por exemplo, enviou uma pequena mensagem que emocionou e deu um incentivo extra a ele. “Vá, viva, sofra e cresça”, dizia o bilhete. “Isso me faz sentir vivo”, contou o médico americano.
Dores e delícias
A BR135 não é uma prova para qualquer um. Este ano, inscreveram-se 71 corredores; 57 estavam alinhados na largada; mas apenas 40 chegaram ao final.


Foto: Guilherme Lara Campos / Fotoarena Ampliar
Sorriso no rosto: a alegria também é marca registrada dos ultramaratonistas
Ao longo de 217 quilômetros muita coisa acontece: de hipertermia, desidratação e bolhas até alucinações e uma inesperada mordida de cachorro.
Além de preparo físico e determinação, esses ultramaratonistas têm algo que impressiona quem está de fora: um imenso sorriso no rosto que escancara a alegria da superação de limites. A tatuagem na perna do vencedor da BR135 deste ano, Kurt Lindermueller, alemão naturalizado costa-riquenho, de 50 anos, que completou a prova em 28h19m, parece resumir o espírito da coisa: “nunca vou me render”.
Ao falar de grandes distâncias, eles sorriem e minimizam as dificuldades. Chegam felizes, emocionados, cada um com sua motivação pessoal e sua história. Como se fazer mais de 200 quilômetros fosse ir ali, na esquina.
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