30 ANOS OF ROAD.

01 de abril de 1980. Bairro de Olaria. Escola Berlim.
Pangaré - catorze anos incompletos, morador de Ramos, berço da Imperatriz Leopoldinense - é aluno da oitava série. Migra de bairro em razão da Escola Edmundo Lins, na qual estuda desde a sua primeira série em 1973, não oferecer o último ano do antigo Primeiro Grau.
Tem como professor de Educação Física, um sedentário e fumante inveterado. Um típico representante do ‘faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço’.
As aulas dessa disciplina acontecem ao meio-dia, antes do início das atividades em sala de aula, às 13 hs.
A linha de trabalho desse educador físico é simples e objetiva: estaciona seu automóvel, um Fiat Panorama meio caidinho, sob a sombra mais próxima da Quadra Azul – uma quadra de futebol de salão que, devido à sua proximidade da escola (que não possui dependências para qualquer atividade desportiva), termina se tornando uma espécie de escritório a céu aberto do professor e local da ocorrência de – corrida à parte – todas as atividades de sua disciplina -, relaxa com seu cigarrinho e põe a moçada para dar voltas (quantas?), correndo, no quarteirão. Talvez umas cinco, se bem que ‘Panga’, provavelmente, desse algumas a mais... “ – Vombora, galera, não pára não! Vamo lá! Vamos lá! ” – incentivava, com os lábios, o professor aos seus alunos.
Complementando o ‘kit desportivo’ dessa figura única de cujo nome o ultramaratonista, infelizmente, não mais se recorda, um salãozinho, para descontração geral, uma vez que correr – ontem tanto quanto hoje – não é uma ação desportiva vista com bons olhos pelos alunos.
Classificado literalmente como ‘pereba’ (ruim de bola), Pangaré, no máximo, consegue uma vaga no gol do futebol de salão, nessas suas aulas de Educação Física.
E, nessa brincadeira de correr, nasce em ‘Panga’ uma afeição muito especial pelo ato de correr. Essa brincadeirinha está inteirando trinta anos.
Aqui, um parêntesis: a corrida informal, no ultramaratonista, antecede a esse momento, já que era comum descer e subir, correndo, o morro em que reside, sempre que necessitasse, por exemplo, ir fazer um mandado para sua mãe. Numa dessas, terminou sendo atropelado, em 1973, por um táxi, sofrendo pequenas escoriações, que não conseguiram impedir-lhe de ir à escola.
Retornando a 1980, nessa mesma época, ele ouve na televisão alguma coisa sobre a Fundação Roberto Marinho, que estaria organizando um evento multi-desportivo. Decide-se não só por correr, porém, montar uma equipe. Convence ‘China’, Carlos Alberto, Marinho e Alexandre a formarem um grupo.
A coisa não funcionou. Para a competição, que aconteceria em um quartel do Exército, no bairro de Deodoro, somente ‘Panga’ e China se apresentaram. Nenhum dos dois logrou cruzar a linha de chegada na prova escolhida: 1500 ms rasos.    
Desistir? Nada disso. Passa a freqüentar a Cidade Universitária (campus da UFRJ), que fica a uns 20 minutos no máximo da sua residência. Ali, encontra um espaço físico espetacular, amadurece o gosto pelo correr, adquire condicionamento físico, faz suas primeiras amizades entre corredores e segue em frente.
Só em 1982, sua primeira prova de rua: 10 kms. Correu com catapora, sem material adequado.
Em 1983, começava a treinar no Ginásio Célio de Barros, palco, na década de 80, de grandes performances do atletismo nacional.
No ano seguinte, é aceito na Equipe Aço, de Bonsucesso.
Aos dezoito anos, em 1985, tenta a vida militar. Só resistiu por um ano na Marinha. Foi lá que fez sua estréia em maratona. Correu a Maratona do Rio para 3’33’’34, mesmo treinando irregularmente.
Deixa a Marinha para ingressar, em 1986, na UFRJ, conseguindo um espaço na equipe de corrida rústica da instituição.
Eis um divisor de águas. Conhece o Professor César Couto, passa a treinar duas vezes por dia, baixa de três hs seu tempo em maratona, em Santos/SP.
Já no ano seguinte, novamente em Santos/SP, seu recorde pessoal na maratona – até hoje de pé: 2’42’’06.
Muita coisa se passa. A faculdade passa a ser encarada sem muita seriedade. A corrida passa a ser sua mola-mestra.
Em 1989, seu único abandono em trinta anos de estrada: Dourados/MS. Maratona do Fogo. Dá, por excesso de treino, tchau à prova no km 33. Esse, aliás, seria um problema sempre recorrente na vida de ‘Panga’: treinar demais. De menos, jamais.
Em 1991, o Ceará entra em sua vida – se bem que já tivesse, dois anos antes, estado em Fortaleza.
Vem à Fortaleza, logo após a Maratona do Rio, participar do Encontro Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ENEPe), decide cabular algumas atividades numa certa quinta-feira e parte, com um amigo, para a Prainha/Aquiraz, na qual, conhece Eunice, hoje sua esposa.
Desportivamente, com certeza, uma mudança geográfica passível de questionamento (...). Entretanto, o foco da permuta do RJ pelo CE tem, como pano de fundo, o afetivo.
Em 1993, numa prova de seis kms em Maracanaú, organizada pelo SESI (da qual, até hoje, nunca recebeu a premiação), sua primeira vitória no Ceará. Em seguida, repete o feito, numa prova de 10 kms em Campos Sales.
No ano seguinte, vence em Acaraú, na festa de aniversário da cidade, uma prova de nove kms.
1994 também é palco do início de um trabalho cujo intuito seria sua inclusão no GUINNESS BOOK. A meta seria correr setecentos e trinta vezes em um ano, atingir dez mil kms e fechar esse trabalho, no Rio de Janeiro, com chave de ouro, correndo uma maratona, no percurso histórico da Maratona do Rio.
Com as passagens aéreas cedidas pela Antarctica, entra, pela primeira vez, em um avião.
Era a glória. Para quem meio desacreditado do Rio, anos antes, saíra quanto se manter de pé como atleta, nada mal pousar no Galeão a bordo de um 767 da Transbrasil, prestes a fazer algo incomum.
Na noite de 25 de janeiro de 1995, com aval da Federação de Atletismo do Rio de Janeiro (FARJ), proteção da Polícia Militar e cobertura da Rede Globo de Televisão, que, para esse evento, designara seu repórter top de linha, Marcos Uchôa, ‘Panga’ completa seus dez mil kms, aqui, ainda, FERNANDO.
Aqui! Depois, não! Na conclusão da matéria - que utiliza um infográfico dentro do qual o ultramaratonista aparece correndo e que aponta que eventuais percursos podem ser traçados  à luz desse volume intenso – Uchôa diz: “ FERNANDO É PANGARÉ, MAS NÃO É BURRO! ” Nasce, nesse instante, o ultramaratonista Fernando PANGARÉ.
O tempo passa, e ele encarar um jejum involuntário de seis anos. Não faz sequer uma competição entre 1996 e 2001. Em relação à maratona – até então sua prova específica -, a hibernação é de exatos dez anos (1991/2001)!    
Em 1997, sua primeira viagem internacional: Itália, Egito e Israel, aonde tentou, sem êxito, o ‘Desafio do Século’, 94 kms entre Netanya e Jerusalém.    
O debutar em ultramaratona ocorre no RS em 2002, numa prova de 50 kms em Rio Grande: 4’26. Nesse mesmo ano, sua primeira prova de 24 horas, em Salvador/BA. 149 kms. Nada mal. Sétima colocação geral.
Na República Tcheca, em 2005, tenta a prova de 48 hs. Horrível. Adoece. Infecção na garganta. Pus verde brabo na garganta. Consegue correr menos que em sua pior prova de 24 hs até então: pouco mais de 136 kms!
Seu recorde pessoal em provas de 24 horas – hoje, sua especificidade no pedestrianismo – ocorre em San Pedro, em dezembro de 2007.
A bem da verdade, na Argentina, fora essa prova, ‘Panga’ corre outras seis, desde Puerto Madryn, na Patagônia, local da sua primeira competição argentina, em 2005.
Fora a inserção européia em 2005, tenta o Velho Mundo em outros dois episódios, sempre com uma resposta não muito favorável, tendo em vista seu corpo não conseguir se harmonizar com o usual frio intenso enfrentado prejudica em demasia seu metabolismo.
Corre a maratona – que representou a sua predileção entre os anos de 1985 e 2002 -, desde que opta pelo CE, em 1991 -, vinte e quatro vezes. A melhor dessas performances foi em Punta del Leste, no Uruguai, em 2008: 3’12’’58.
Antes, nesse mesmo ano, faz uma prova de 92 kms (46 kms: meio a meio – subida e descida – ida e volta) na Cordilheira dos Andes, no Chile, em pouco menos de 13 hs: 12’52.
Por fim, no ano passado, uma gloriosa sua primeira participação em um sul-americano. Uma senhora estréia. Obtem o terceiro lugar no Campeonato Sul-americano Máster de 100 kms, em Villavicencio, Colômbia, repetindo o mesmo 12’52 do Chile.
Após tudo isso, impossível não crer no Poder Ilimitado de Deus. O que o Poder Sobrenatural da Fé não faz!
O camarada nunca acessou a meio centavo sequer do Erário Público Desportivo Estadual, mesmo sendo, desde 1995, professor concursado, ou seja, prata da casa!
De igual modo, nunca viu a Federação Cearense de Atletismo sinalizar-lhe sequer uma moeda!
Como, então, sob apoios privados pequenininhos, o moleque, apenas nos últimos sete anos, corre NOVENTA E TRÊS provas, sendo TREZE delas fora do País e apenas NOVE, em Fortaleza?! Alguém ousaria responder?!
Resta-me, correndo, numa atitude de gratidão, dar uma volta em Fortaleza! E, é claro, concluir o livro cuja disponibilidade temporal para trabalhá-lo, ora, não tô tendo. 

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